Abade Correia da Serra
A 6 de junho de 1750, nascia em Serpa José Correia da Serra, filho do Dr. Luís Dias Correia e de D. Francisca Luísa da Serra.
Infância e vida académica
Quando Correia da Serra era ainda criança, o seu pai teve que ir para Roma, levando consigo toda a família, sendo aí que Correia da Serra começou a sua educação, revelando logo desde bem cedo muito engenho e agudeza, sendo tais os progressos que fez nos estudos, que quando tinha apenas 11 anos de idade, imprimiu a sua primeira obra consagrada a S. José.
José Correia da Serra dedicou-se principalmente à botânica e às antiguidades, mas as línguas foram nessa época o principal alvo das suas atenções, chegando a ser tão dado ao conhecimento das línguas, que lhe eram familiares a francesa, inglesa, alemã, árabe, grega, italiana, latina, espanhola e portuguesa. Ele era tão estudioso que muitas vezes o próprio pai o obrigava a interromper o trabalho receando que tamanha aplicação lhe prejudicasse a saúde.
Vida profissional
Em 1771, o seu pai regressou a Portugal, deixando a família em Roma, onde seu filho, que havia escolhido a carreira eclesiástica, tomou as ordens menores e todas as mais até às de presbítero, celebrando a sua primeira missa na imponente basílica de S. Pedro em 1775. No ano seguinte o seu pai chamou-o a Lisboa, porque o Marquês do Pombal, que lhe dispensava a sua protecção, havia-lhe prometido um emprego muitíssimo bem remunerado para o filho. À ordem de seu pai, o Abade Correia da Serra saiu logo de Roma, desprezando até mesmo grandes partidos que lhe ofereceram em Itália, preferindo a tudo o serviço da pátria. No entanto, visto que não encontrou um navio que viesse para Portugal, embarcou a bordo dum que saía para Cádis, vindo de lá por terra para Portugal acompanhado de sua família.
Em Cádis, o Abade Correia da Serra soube da morte do rei D. José, e em Mértola, onde chegou a 29 de Março de 1777, soube que seu pai havia morrido havia pouco mais de um mês, e que o marquês de Pombal já tinha sido demitido do governo. A sensação causada por estes imprevistos desgostos, abalou-lhe profundamente a saúde, mas visto que já era conhecido no país pela sua reputação de grande erudito, foi muito bem recebido e geralmente estimado em Lisboa.
A 3 de Janeiro de 1779, o duque de Lafões chegou a Portugal, e por oferta deste seu ilustre amigo, aceitou a hospedagem no seu palácio, após ter concluído alguns negócios com a sua família. Foi ali, e sob a influência benéfica do duque, que José Correia da Serra começou a delinear a organização e os estatutos da Academia Real das Ciências, que o seu patrono conseguiu imediatamente criar, sob a protecção da rainha D. Maria I, por aviso régio de 24 de Dezembro de 1779. O duque de Lafões ficou com o cargo presidente, ficando o visconde de Barbacena como secretário, mas após este resignar ao cargo, assumiu-o José Correia da Serra, o verdadeiro fundador dessa corporação científica.
A fuga para Londres
O incontestável merecimento de Correia da Serra, bem como a estima de estranhos e naturais, e a amizade com que o distinguia o duque de Lafões, chamaram sobre este muitos ódios e invejas. Nessa altura, havia chegado a Lisboa o célebre naturalista Boussonet, fugido de França, e Correia da Serra recomendando-o ao duque de Lafões, manteve-o escondido num quarto do edifício da academia. Mas, apesar de todas as precauções, o governo soube da estada em Lisboa do emigrado francês, e o ministro visconde de Vila Nova da Cerveira deu a entender a Correia da Serra, que a rainha não estava satisfeita com o modo como este agira com esse estrangeiro.
Não se sabe bem se devido a essa simples advertência, ou se por lhe sido mandado passar ordem de prisão contra Correia da Serra e contra o seu protegido, o certo é que ele, atravessando do Algarve até Gibraltar embarcou juntamente com Broussonet para Inglaterra sem levar consigo passaporte nem licença. Em Londres, Correia da Serra foi muitíssimo bem acolhido como ilustre académico por todos os homens de ciência, e em especial pelo presidente da Sociedade Real de Londres, o célebre Joseph Bankt, sendo que aí ele de novo se entregou aos estudos botânicos.
O fim da sua vida
Mais tarde, e após outras viagens, o Abade José Correia da Serra regressou a Portugal, sendo que em 1822, a cidade de Beja o elegeu deputado às cortes, mas nem o seu génio nem a sua saúde já muito quebrada lhe permitiram tomar parte importante nos trabalhos parlamentares, e após ir às Caldas da Rainha em busca de alívio para os seus sofrimentos, ali faleceu a 11 de Setembro de 1823, com 73 anos.
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